E, de Equador
Equador e·qua·dor sm
Foram três as vezes em que pisei no Equador. Foram três as vezes em que tive problemas para sair do Equador. Na verdade, duas. Na terceira, tive problemas para entrar, ficar e sair. Foram três as vezes em que me apaixonei pelo Equador. E por sua gente. Da primeira vez, estava terminando uma viagem longa, mas não tão longa assim, pelos Andes. Por algumas partes dele. Fui à Quito. Uma cidade linda, uma pequena capital. Uma cidade com gente muito amável. Conheci a Metade do Mundo e pisei na neve, que era gelo, do Cotopaxi. Fui superagasalhadinho, como me recomendou a dona do prédio, meio hotel, em que me hospedei. Dei umas notas de reais para umas amigas da sapataria. Fugi do excesso de amabilidade do porteiro, que queria me levar, de manhã cedo para o ponto de ônibus. Comi muito bem, e barato, em dólar. E me despedi da cidade, e da viagem, ao som de “quiero tener un millón de amigos” no rádio da taxista que me levava ao aeroporto. No aeroporto, Natalia Chávez (jamais esqueci seu nome) me disse que o voo que pegaria na conexão em Lima havia mudado de data e que havíamos sido informados disso. Era 2011, era uma viagem sem smartphone ou internet fácil. Briguei bastante com Natalia Chávez - descobri ali que falava espanhol sim - até que ela resolveu o problema: uma viagem Quito - Lima - Santiago - Buenos Aires - Mendoza - São Paulo - Rio de Janeiro (talvez com alguma outra conexão ou escala mais - havia escala naquele tempo). Naquele tempo, havia também comida em todo voo da Copa. Nunca viajei tão bem alimentado. Saudades daquele tempo. Da primeira vez, saí do Equador, mas gostei de lá e queria voltar.
Da segunda vez em que estive no Equador, estava passando uns meses na Colômbia e tinha que sair e voltar a entrar no país para não exceder o tempo de permanência legal nele. Vi qual era o voo mais barato e o comprei: Guayaquil - uma das coordenadas dos Bacilos na sua trajetória ao primeiro milhão. Da segunda vez, já não comi tão barato assim, em dólar. Dividi um quarto de hostel, primeiro com uma europeia, dessas que ficam de sapato em cima da cama (não foi a primeira vez em que dividi quarto com uma dessas), depois com um hondurenho, que tirava o sapato, tão gentil quanto o povo equatoriano. E conheci uma prática que parece ser comum na América Latina - a de viajar para carimbar passaportes antes de pedir o visto para os EUA. E tinha programado ir a Montanhita - parada obrigatória para surfistas, mas eu não surfo. Quando cheguei à rodoviária, não tinha mais ônibus para Montanhita. Me recomendaram pegar para uma outra cidade e de lá pegar outro. Foi o que fiz. Cheguei na outra cidade e peguei o ônibus. No meio do caminho, o ônibus parou e nos mandaram descer. Dali, ele não poderia seguir. Havia revoltas e protestos ocorrendo por todo o país. Eu não sabia. Não tinha TV no hostel. Atravessei o protesto a pé (me deixaram passar - eles escolhiam quem passava e quem não passava) e andei junto com as outras pessoas, que também conseguiram passar, sem a menor ideia do que eu estava fazendo. Andamos até um povoado, e de lá, peguei um carro (assim no meio da rua mesmo) de um cara que decidiu tirar uma grana com o impedimento à passagem dos ônibus, com mais duas pessoas, que me deixou em Montanhita. Todos muito gentis. Não fez um dia de sol. Não entrei no mar. Até entrei, mas não fiquei. Não tomei um porre de tequila, marguerita, pinha colada e cerveja. Tentei tomar, mas nada aconteceu. Fiz amizade com um gato, também muito gentil, no meio de uma discoteca de chão de terra batida, meio aberta meio fechada. Mas não estava bêbado. Saí de Montanhita em um dia bem cedo, antes dos protestos começarem. No dia de sair de Guayaquil, decidi chegar bem cedo ao aeroporto. Cheguei. Eu nunca chego cedo em aeroporto, mesmo quando quero muito. Um aeroporto bem pequeno. Faltavam três horas para o voo. Entrei e fiquei esperando em um portão qualquer. O portão do meu voo não havia sido alocado ainda. Não havia movimento. Achei que o voo ia estar bem vazio. Quem sai de Guayaquil para Bogotá em plena segunda (ou era terça?) à tarde? O voo devia estar atrasado. Não havia movimento em nenhuma porta do aeroporto. Nenhum anúncio do voo. De onde eu estava eu via todas as portas. Faltando uns vinte minutos, fui buscar informação. O avião já estava fechado. Já haviam embarcado todos. Todos menos eu. De onde eu estava, eu via todas as portas, menos uma (ou talvez fosse mais de uma), que estava atrás de uma outra porta. Disseram ter me chamado. Não ouvi. Perdi o voo. Mesmo com o avião em terra. Mesmo eu chorando para os atendentes. Tive que sair do aeroporto. Mas antes tive que passar pela polícia federal deles. Tive minha saída anulada. NULO. Diz o carimbo em meu passaporte. Não sei quantas pessoas mais têm esse carimbo. Algumas devem ter - já que o carimbo já existia antes de ele estar em meu passaporte. Fui comprar outro voo para voltar à Colômbia. A ideia era fazer uma viagem barata. Comprei um voo para o mesmo dia. Não deu certo. Da segunda vez, saí do Equador duas vezes, mas, ainda assim, gostei de lá e queria voltar.
Da terceira vez, estava em uma outra viagem pelos Andes. Na verdade, por eles e pelo litoral atrás deles. A ideia era ir de Lima a Trujillo e de lá subir pelo litoral até Guayaquil novamente. Quando estava em Máncora, ainda no Peru, soube de atentados por todo Equador. Não havia como cruzar o país de ônibus. Decidi ficar em Máncora até saber o que fazer. Fiquei em contato com a “empresa” de ônibus que fazia viagem até o Equador. Um dia sairia um ônibus para Cuenca. Peguei esse ônibus. Na fronteira, desci para fazer o trâmite da imigração. Não poderia passar. Só os equatorianos estavam liberados. Na verdade, os peruanos não estavam liberados. Mas eles não sabiam o que fazer comigo. O que fazia um brasileiro viajando de ônibus por ali? Não havia sinal de telefone, nem Wi-Fi, nem nada mais no posto da fronteira. Só o posto da fronteira. Não tinha ideia do que fazer ali. Nem de como sairia caso o ônibus fosse embora. Tentei explicar isso para a policial da imigração. Mostrei meu voo de saída do Equador. Ela disse que até poderia deixar eu sair do Peru, mas o policial equatoriano não deixaria eu entrar no Equador. Ele estava do lado dela. Uma fila, um país. Outra fila, outro país. Uma faixa amarela no chão. Uma fronteira. Quase chorei, mas não foi preciso. Me deixaram passar. Saí da fila de saída, depois de ela carimbar meu passaporte, e entrei na fila de entrada para ele carimbá-lo de novo. Fiquei com medo de perguntarem sobre o NULO. Não perguntaram. Já tinham feito perguntas demais. Conheci Cuenca. A terra dos aposentados estadunidenses que decidem ter uma vida mais barata, ainda em dólar, deixando tudo mais caro, na América Latina. Conheci o frio de Cuenca a poucos minutos do calor de Guayaquil. Foi difícil dormir no frio de Cuenca. Sonhei com um fantasma que vivia no quarto. E conheci sua linda arquitetura. E suas lindas paisagens. E sua linda gente. Comi pouco em Cuenca. Já tudo parecia muito caro. Fiquei em Cuenca uns dias e de lá peguei uma van direto para o aeroporto. Não era seguro passear por Guayaquil ou qualquer outra parte do país. Não mudaram meu voo. Não perdi o voo. Da terceira vez, consegui sair do Equador, com medo, mas saí. E, ainda assim, gostei de lá e queria voltar.
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